Tchau, cabelo

TCHAU, CABELO
Como pode um negócio tão pouco arriscado e tão passageiro dar tanto frio na barriga? Mas dá. Quando me sentei na frente do espelho com a tesoura na mão, disposta a cortar completamente o meu cabelo, meu coração estava disparado. E quando vi o primeiro tufo desprendido da cabeça, meu estômago gelou. É, aquele frio metálico da lâmina rente ao couro cabeludo tem um quê de atirar-se num abismo.   Há anos queria saber como eu ficaria sem cabelo, mas tive de ir para a Índia (onde raspar o cabelo é tão comum quanto fazer plástica por aqui) para tomar coragem. E o que mais ou das minhas amigas quando voltei foi alguma variação de “nossa, sempre tive vontade, mas faltou coragem”. Por quê? Não tenho respesta definitiva, mas agora tenho menos teoria.   Enquanto enrolava pequenas quantid…ades de cabelo com o dedo indicador e cortava perto da raiz, me perguntava: O que será que meu pai, minha mãe, tal amiga, chefe, amigo do trabalho vão pensar? Junto com o “ixi, acho que faltou cortar ali atrás”, essas aparições dominaram meus pensamentos nas quatro horas que levei para passar de cabelo-um-palmo-abaixo-dos-ombros a sem-cabelo-nenhum. De frente para o espelho, repeti mentalmente dezenas de vezes: E dai? E daí o que tal pessoa vai pensar?: E daí que todo mundo olhe torto? E daí que só sobre eu comigo mesma?   Minha teoria diz que este é o limite que você empurra quando raspa o cabelo: assim como quem se joga num abismo ( com paraquedas nas costas, claro) flerta com a rejeição. Ao aniquilar um artifício estético tão poderoso – um “disfarce” que você molda como realmente é. E corre, portanto, o risco de se tornar irrevogavelmente sozinha.   Quando me vi careca, senti o contrário de solidão. Foi uma espécie rara e deliciosa de autoestima, que vem da certeza de que ninguém fica sozinho quando esculta com atenção quem realmente importa: a si mesma.